Um Passo De Cada Vez
- Nayara Bolognesi
- 1 de jun. de 2018
- 3 min de leitura
A carreira de Lilian Marcelino, 22 anos, deu um grande salto em pouco mais de um ano: Ela deixou de se ofender com os comentários sobre seu peso para ganhar dinheiro e reconhecimento profissional com isso
A todo tempo bem-humorada e com um sorriso no rosto que cativa quem quer que seja de uma maneira leve, Lilian, conquistou seu espaço no mercado da moda.
Ela começou a carreira em janeiro do ano passado e, desde então, vem percebendo como a moda vem desconstruindo um padrão de peso para as mulheres, construindo outro no lugar. Ela conta como percebeu que nos trabalhos que ela considera como “maiores”, normalmente são as modelos de manequins mais curvilíneos, que vestem até 48, as mais bem selecionadas. Ela dá um leve sorriso irônico e respira fundo ao dizer que para ser militante no mercado plus, é necessário ter um manequim menor que 50 para ser notada pelas grandes marcas.
Os olhos de Lilian brilham ao dizer com esperança que mesmo com essa dificuldade e pouco tempo atuando, ela vê que o mercado plus está crescendo bastante, tanto nas lojas, campanhas ou para as modelos de passarela.
A resistência negra e crespa
Ao contar para nós como nunca foi uma mulher magra, dentro dos padrões, ela destaca o fato de como além de gorda, ser uma mulher negra nunca foram fatores que determinaram a abertura de portas em sua vida, muito pelo contrário, ela fala sobre como nossa sociedade é extremamente preconceituosa e racista. Hoje, ela diz se enquadrar em três grupos diferentes: o das negras, outro das gordas e por último o das crespas.
Ao jogar o cabelo para o lado sorrindo entre as palavras ela diz que ao se olhar no espelho sabe que é muito mais que negra e crespa. Tem seu amor próprio e se acha linda. Porém, vê que a sociedade, ainda assim, a enxerga de outra forma. Para ela, é uma luta constante que enfrenta desde que é pequenininha e sabe o peso da força que tem que ter.

Em certa situação fez um teste para uma marca e ouviu “Não desejo uma plus negra para dar a cara a marca nessa campanha.”Ela se encaixava em todos os pré-requisitos desejados para o trabalho, mas ser negra não era um deles.
Para Lilian, o preconceito nada mais é do que uma falta de respeito e não vê isso acabando tão cedo. Ela afirma que não se incomoda com a vontade do próximo quem concorda com a sua decisão. “Sou eu que tenho que aprovar o meu corpo” diz.
Crescendo e lutando
No começo do ano Lilian protagonizou uma grande campanha para O Boticário. Mesmo com esse destaque ela recebeu comentários gordofóbicos que afirmavam que a própria marca estava fazendo apologia à obesidade.
Ela revira os olhos, balança a cabeça negativamente e conta como enxerga as mudanças das marcas e acredita que algumas querem incluir as modelos plus e negras nesse mundo da moda, quebrando tabus de rostos e corpos finos e de pele claras, cabelos sedosos, esvoaçantes e lisos.
Se imaginar em uma capa de revista nunca foi um dos sonhos de Lilian, para ela, isso era praticamente impossível. Mas em março, ela protagonizou uma matéria na qual virou o principal destaque na Revista Profashional.

A maior inspiração
Com os olhos cheios de lágrimas, a modelo nos diz como tudo começou com o “empurrão” de sua mãe que a incentivou a procurar uma agência e começar a participar de concursos.
Apesar de acreditar que o comercial que fez para O Boticário seja o maior destaque de sua carreira até agora, ela faz questão de citar a campanha de Dia das Mulheres, na qual dividiu espaço com Claudia Leitte.
Como não podia ser diferente, toda empoderada, ela finaliza com uma frase de efeito: “O mundo da moda não é para quem quer, é para quem pode. ” Para ela, se você souber lidar com ele, vai poder realizar sonhos que nem sabia que tinha.
Texto escrito para revista Catwalk



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